É de moto que vamos fugir ao caos urbano

Mais do que proporcionar liberdade ao seu utilizador, a retoma das motos tem sido feita a pensar na mobilidade, tempo ganho e poupança.

Diz-se que são parte da solução para o congestionamento dos meios urbanos. Em pouco mais de um ano, venderam-se mais de 25 mil motos.

Nas nossas cidades, abundam os problemas de mobilidade, de poluição, de falta de espaço, de ruído. Há carros e motos estacionados sobre os passeios, alguns em segunda fila.

 

As portagens e o parqueamento encarecem, e os espaços junto aos interfaces de transportes não são suficientes, ou, quando existem, não são gratuitos. Acresce que o combustível gasto para as deslocações entre as nossas casas, nas periferias das cidades, e o local de trabalho, já não sobra para a semana seguinte e começa a entrar na zona da reserva. Gastamos tempo precioso das nossas vidas no pára-arranca. Há quem já tenha tomado decisões drásticas.

Uma delas foi Patrícia Alves, com solução drástica, mas simples... Comprou uma moto. Habita no Cacém e é secretária em Lisboa. Tem 34 anos e nunca tinha andado de moto. Agora usa-a numa base diária. "Fui autodidacta, fui aprendendo, mas não foi complicado. Na altura em que tirei a carta de condução, os meus pais não quiseram que lhe juntasse a de moto", esclarece Patrícia, que adquiriu uma scooter de 125cc. Fê-lo ao deixar de ser necessário título específico para conduzir motociclos com capacidade superior a 50cc e não mais que 125cc, bastando a carta de condução automóvel e que o condutor tenha a idade mínima de 25 anos. A alteração ao código da estrada resulta da aprovação da lei 78/2009, de 13 de Agosto.  

Uma iniciativa legislativa do PCP que colheu consenso parlamentar, já comummente chamada de "lei das 125".


Desde então, já se venderam 25 mil daqueles veículos. Os suficientes para justificarem que pode ser mais que uma tendência. Tarde chegou a Portugal, pois a maioria dos centros urbanos do Sul da Europa e França e Inglaterra já não pode viver sem as motos. Madrid e Barcelona, Atenas, Roma, Milão e Florença entrariam em colapso se há muito não tivessem feito essa migração dos veículos de quatro para duas rodas.

"Foi há dez anos, em França, que a experiência se espalhou para o Sul da Europa, e logo que se verificou que trazia muitas vantagens aos centros urbanos, sobretudo na mobilidade", diz Jorge Viegas, presidente da Federação de Motociclismo de Portugal e vice-presidente do organismo federativo internacional.

 

Um estudo do Instituto Superior Técnico para a ACAP - Associação Automóvel de Portugal, revela, como principais conclusões, que uma semelhante migração em Portugal, mesmo que limitada a dez por cento, permitiria uma redução de emissão de 54 mil toneladas de CO2/ano para a atmosfera - um automóvel emite cerca de 128g/km de dióxido de carbono, quando um motociclo de 125cc emite apenas 43g/km. Também se evitaria o consumo de 17 mil toneladas de combustível, o que representaria uma poupança na ordem dos seis milhões de euros/ano - 2,5l/100km é o consumo médio de um motociclo de 125cc.

E a libertação de espaço por aquela migração é significativa, estimando-se em 96 hectares de espaço urbano que deixariam de ser ocupados pelos automóveis, qualquer coisa como a área de 67 campos de futebol.
 

 

Ganhar um dia por mês

O estudo conclui ainda que as deslocações diárias pendulares de 50 km em vias de tráfego intenso podem custar ao utilizador uma hora em filas em cada percurso de automóvel. E admite que, com um motociclo, aquele mesmo percurso poderia ser feito em apenas 30 minutos, o que significaria um ganho de uma hora por dia, ou mais um dia por mês.

 

Patrícia Alves explica o que tem ganho com a sua experiência na scooter: "É muito mais económico. Antes viajava com o meu marido numa carrinha diesel e alugámos um lugar de garagem no Campo Pequeno [Lisboa]. Ficava por 130 euros, fora o gasóleo. A outra grande diferença é no tempo ganho. Do Cacém para Lisboa, o IC19 é um caos à hora de ponta, e demorávamos uma hora na viagem. Agora são apenas 20 minutos."

 

O Moto Clube de Lisboa (MCL), um dos 152 clubes filiados na FMP e que representa 190 motociclistas, acredita que a utilização da moto "é a grande parte da solução para o descongestionamento nas grandes cidades, é um meio de transporte económico, barato e de fácil parqueamento", diz Nélson Venâncio, responsável pela comunicação do clube.

 

"Esta lei das 125 foi bastante positiva para a movida motociclista e consequente mobilidade nas cidades, visto que muitas pessoas, que já conduziam ciclomotores e/ou que tinham vontade de conduzir algo com mais potência, mas não tinham paciência ou possibilidades económicas para tirarem outro título de condução, viram nesta lei uma grande oportunidade de alterarem os seus hábitos de locomoção, facilitando a sua vida quotidiana", justifica Nélson Venâncio.

 

"Está a valer a pena esta lei, mas fomos os últimos a adoptar a directiva europeia", sublinha Correia Luís, director-geral da Divisão Moto da Honda Portugal, que este ano já vendeu perto de 1800 unidades do segmento acima de 50cc e até 125cc. "O mercado estava a definhar. As motos de 50cc, que se viam nos liceus a partir dos anos 80, davam a liberdade aos jovens, que agora só a conseguem aos 18 anos, mas com um automóvel. Perdeu-se mobilidade. Mas agora há famílias que abatem um dos seus carros para adquirir uma scooter. Por outro lado, a lei foi benéfica para o sector e para a economia", justifica, para acrescentar que muita gente interessada por estas motos "estava acomodada e já não estava para tirar uma nova carta de condução."

p
u
b

Mas estará toda a gente preparada para assumir os comandos de um motociclo? A nova motard diz que ainda não passou por qualquer aflição, e que é tudo uma questão de bom senso, o que falta aos automobilistas. Diz Patrícia Alves que os automobilistas "têm muito pouca atenção às motos, mudam de faixa, fazem manobras bruscas. Somos nós que temos que redobrar atenção."

 

O MCL lamenta a ausência de acções de sensibilização, pois sustenta que "houve muitas pessoas que quiseram começar a conduzir motociclos sem sequer saber andar numa bicicleta." "Apenas neste aspecto é que esta lei pecou, mas mesmo assim o número de acidentes com motociclos - por culpa destes - não aumentou."

 

Correia Luís acredita que quem acede às motos por esta via não o faz para acelerar [a legislação restringe a um máximo de 15cv as motorizações autorizadas]. É também uma questão cultural, que está a mudar, e, como marca responsável, a Honda zela pela segurança rodoviária e tem uma escola de pilotagem para os seus clientes aprenderem a conduzir em segurança."

 

"A lei entrou tarde, pois havia medo do aumento da sinistralidade. O que não se tem verificado. Em tempos, havia quem comprasse uma moto de alta cilindrada sem passar pelas cilindradas baixas e à saída do stand estampava-se", recorda Jorge Viegas.

 

Falta estacionamento

O dirigente federativo diz que há muito para fazer em Portugal pela mobilidade: "Em Paris, a moto-táxi é um sucesso, mas aqui já se pensa no assunto, a circulação em faixas BUS tarda a ser autorizada. A câmara vai fazendo algo pelo estacionamento, mas ainda é insuficiente, por isso é que há motos nos passeios um pouco por todo o lado."

 

"Os resultados estão à vista", diz o legislador, Miguel Tiago, deputado do PCP, também ele motociclista, que elenca algumas das vantagens: "Não só não se verificaram os aspectos negativos que temiam, como se verificaram os aspectos positivos, pelo simples facto de libertarmos espaço na cidade e melhorarmos a qualidade de vida das pessoas, que usufruem de meio de transporte mais barato, mais rápido, ambientalmente mais equilibrado e que lhes permite ganhar tempo em filas de trânsito. Tempo tirado à família e ao descanso."
 

Cidades pouco amigáveis

"Os aspectos negativos anunciados por um sector que entendia que esta lei iria prejudicar esse sector [escolas de condução] já foram negados. Dizia-se que iria aumentar a sinistralidade, mas houve uma diminuição. Segundo o relatório preliminar da Segurança Rodoviária, por cada moto que circula há menos acidentes.

Miguel Tiago admite que não foi fácil aprovar a lei, mas, no essencial, ela beneficia quem nunca tinha conduzido motos. "Quem entra nisto, tem mais de 30 anos. Nunca pensou em tirar a carta de moto. É uma experimentação e uma nova mobilidade."

No seu quotidiano, o deputado sente as mesmas dificuldades que os recém-chegados às duas rodas: "[As cidades] não são amigáveis. Há armadilhas, buracos, pavimentos escorregadios, passadeiras em calcário, materiais derrapantes, carris altos de eléctrico, impossibilidade de circular em corredor BUS, falta de caixa de motociclos [linha que antecede os semáforos para agrupar as motos, evitando a mistura com os automóveis]. E há muita falta de civismo."

 

A próxima luta do PCP para Lisboa será a criação de mais espaços para estacionamento e a circulação nas vias BUS. O vereador camarário para a mobilidade já disse que o assunto é complicado, e que pode passar por nova alteração do Código da Estrada. Miguel Tiago tem outra opinião: "Os sinais podem ser completados com um tipo de frase complementar. Em Inglaterra, as motos podem coabitar com os autocarros. Estamos a trabalhar nesse sentido com a Câmara de Lisboa."

 

Por Carlos Filipe (in publico.pt)

 


Voltar -
Ir para o Topo -
Home -
-
Home Partilhar
 
p
u
b
 

Write a comment

Comments: 0

Pesquisa:

 

by Fusionbot | Mapa do Site

www.AutoPECAS-ONline.pt

Fri

13

Oct

2017

O que representas para eles é a liberdade

Diz a personagem de Nicholson à de Hopper, em Easy Rider. Não, não é do meu tempo (embora 69 também tenha sido um ano de boa colheita), mas é intemporal. Esta é a frase que define o filme.

Read More 0 Comments

Wed

15

Feb

2017

Como escolher o bom tipo de pneu de moto?

Existem cada vez mais categorias, gamas e tratamentos de pneus de moto. Não é fácil escolher o melhor tipo de pneu de entre tantos modelos e escolhas possíveis.

Read More

Thu

02

Feb

2017

Equipamento para andar à chuva

Andar confortável é o primeiro passo para uma condução segura...

Read More
A história do Mototurismo

Grupo de Amigos Pan-European

Turismo-de-moto, turismo, mototurismo, iajar-de-moto, viagens, viajante
Procure-nos no facebook

© Desenvolvido por Magnasubstância

As imagens deste site não podem ser utilizadas sem autorização prévia. Proteção de dados.