Gracinda Ramos e o mototurismo no feminino

Esta é uma entrevista sobre o "passear pela vida" ao ritmo do destino... e de uma mota!

Gracinda Ramos

 

Foi com muito agrado que tive oportunidade de entrevistar a mototurista Gracinda Ramos, que com toda a simpatia acedeu ao convite para me responder a algumas perguntas. A conversa foi-se desenrolando de forma pessoal e descontraída, acerca da pessoa e da sua forma de estar na vida.

 

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Turismo de Moto (T.D.M.): Antes de mais, fala-me um pouco de ti. De onde és, e como te apaixonaste pelas motas?

Gracinda Ramos (G.R.): Nasci em Leça da Palmeira, em frente ao mar! Uma terra muito simpática que pertence a Matosinhos e por isso faz fronteira com o Porto. Ninguém perto de mim, na minha família, amigos ou vizinhos, conduzia moto, por isso ela "veio se chegando" à minha vida por outras razões que não uma paixão, já que me era tão distante e inacessível!

O que me levou a conduzir moto foi o facto de nunca ter gostado de andar de carro e hoje, olhando para trás na minha vida, constato que andei mesmo muito pouco em 4 rodas, dado que sempre o evito fazer! Quando todo o adolescente suspira por que chegue a hora de tirar a carta e conduzir um carro eu tinha calafrios só de pensar que mais dia, menos dia, teria de conduzir um… Fui usando veículos alternativos, primeiro bicicleta, depois motorizada e, finalmente, moto! E consegui escapar-me à condução de um carro até hoje!

Agora a minha paixão pelas motos, na realidade é uma grande paixão pela sua condução, mais que pelas máquinas elas próprias, já que são muito poucos os modelos e marcas de que gosto verdadeiramente. No entanto, quando toca a conduzir, gosto de todas! Isto quer dizer que não tenho qualquer fascínio por assistir a corridas, exposições ou espetáculos de motos.

O meu fascínio é conduzir, conduzir rápido, conduzir em passeio, conduzir em viagem, por dias e dias! Podia faze-lo eternamente!

 

T.D.M.: Mas parece-me que esse fascínio não é só pela mota, como simbolo de liberdade ou objecto prático para deslocações diárias. A certa altura começas a viajar de moto, e penso que encontras finalmente a tua verdadeira paixão. Como se deu essa viragem, ou melhor, como percebeste que querias ir à descoberta do mundo em duas rodas?

G.R.: Quando a gente se habitua a conduzir um veículo de 2 rodas percebe rapidamente o prazer de conduzir que ele dá! Não é só um meio de transporte, é a extensão do nosso corpo!

Depois, eu sempre gostei muito de explorar, passear, ver coisas e ir por aí. Fi-lo de bicicleta, depois de motorizada e, claro, de moto os horizontes estenderam-se! Mas passear no país, ou mesmo por Espanha, foi sempre simples e previsível, passear pela Europa é que veio depois.

Eu ganhei uma bolsa de estudo na Suíça, onde estudei por 2 anos e durante esse tempo que lá estive explorei todo o país de bicicleta. Os comboios estão preparados para transportar ciclistas e bicicletas e eu aproveitei bem essa possibilidade. Percorri Alpes, cidades, aldeias e cada recanto daquele país me deixou saudades ao voltar para cá! Então a minha ideia era ir lá de novo! Ir com um transporte próprio para rever e reviver tudo de novo. Sendo a moto o meu meio de transporte, ainda tentei envia-la de comboio para que ela estivesse lá comigo. Na época não era fácil conseguir esse transporte para ela, então só me restava ir nela mesmo!

Tinha comprado a moto em Junho, uma Africa Twin linda de morrer, e parti em agosto. Andei por lá todo o mês, por 13.000 km e a moto em Setembro, com apenas 3 meses tinha já 15.000 km!

Depois desta pequena aventura, tudo se tornou possível para mim! E voltaria a viajar, não já pelas saudades da Suíça e sim pelas saudades de viajar!

 

Gracinda Ramos

T.D.M.: Não deixa de ser curioso e até divertido, que o teu percurso seja feito por processos de eliminação: Escolheste a mota porque não querias andar de carro, e escolheste viajar de mota porque era a forma mais prática de ires conhecer outro país...

A viagem à Suiça foi então a tua estreia a viajar de mota?.... De Africa Twin, deduzo que sem GPS e sem o conforto das motas actuais, mas mesmo assim lançaste-te à aventura sózinha. Sendo pouco habitual vermos uma mulher nestas andanças, a verdade é que foste somando viagens. Como é percorrer tantos quilometros solitários?

G.R.: Julgo que é importante entender o que eu chamo às coisas! Na realidade eu chamo “viajar” a tudo o que implica muitos quilómetros, muitos dias e países longínquos! Tudo o que é andar pelo nosso país, Espanha e Andorra, para mim, é “passear”.

O que quer dizer que quando eu falo da minha primeira viagem, refiro-me à primeira vez que sai da Península Ibérica. Por isso, quando eu fui a primeira vez à Suíça de moto, eu já conhecia todo o nosso país, Espanha e Andorra de moto!

Assim entende-se melhor que eu tenha pegado na moto e ido mais longe sem dar ouvidos a quem me tentasse desmotivar. Porque eu já fora a tanto lado de moto sozinha, que daquela vez eu só tinha de andar mais para norte umas centenas de quilómetros.

Até esse momento eu fora diversas vezes na minha vespa 50cc a Lisboa, percorrera todo o norte do país, fizera por diversas vezes a Serra da Estrela e dera a volta a Portugal com ela.

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Em casa eu apenas fazia um desenho no mapa, com calma, planeando por onde ir, e depois era só ir seguindo a linha que fizera, de forma a passar e ver os sítios que queria.

 

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Depois veio a Transalp 600 e repeti a volta a Portugal e acrescentei toda a exploração tanto do nosso país quanto do país vizinho, até aos Pirenéus. Quando comprei a AfricaTwin tinha já a sensação de que Portugal, Espanha e Andorra eram pouco para mim e fui mais longe! E sim, tudo se fazia de mapa na mão, dado que o meu primeiro GPS apenas foi adquirido em 2008 e isto tudo se passou bem antes. Em casa eu apenas fazia um desenho no mapa, com calma, planeando por onde ir, e depois era só ir seguindo a linha que fizera, de forma a passar e ver os sítios que queria.

A sensação de andar sozinha sempre me enchia de alegria, porque não me preocupava com nada, nem com ninguém. Muitas vezes dizia que ia num grupo apenas para que os meus familiares e amigos não me chateassem com os seus medos e terrores. Mas na realidade essa sensação de ir por onde queria, completamente por conta própria, muitas vezes apenas ao sabor do vento, essa é que era a imagem da liberdade para mim! Não só a sensação de conduzir moto, mas de a conduzir por onde e como queria, por tempo quase indeterminado!

 

T.D.M.: E com tantas viagens e passeios no teu curriculo, consegues destacar alguma que te tenha marcado de forma especial?

G.R.: Cada viagem tem um encanto único! Como cada país o tem também e esse encanto depende não só do que ele tem para me dar, como do momento em que o visito. Lembro-me que das primeiras vezes que atravessei a Alemanha não achei o pais nada de especial e por isso decidir lá voltar e aí sim, encantar-me.

Cada vez que me perguntam qual o pais mais bonito ou a cidade mais encantadora, eu não sei o que responder! Porque não encontro uma tabela comum para avaliar todos os que conheço! Não é segredo para ninguém que a Suíça é um país lindíssimo onde eu viveria sem qualquer problema e é dos países mais bonitos que conheço também, há momentos em que o considero mesmo o mais bonito, porque para alem da sua beleza natural e da sua organização no sentido em que tudo nele pode ser visitado até aos mais altos e inacessíveis picos alpinos, tem muito sol e estradas espantosas para se passear de moto!

Mas são 30 países europeus, mais Marrocos, que conheço e seria injusta se pusesse todos os outros em segundo plano em relação à Suíça, considerando que ela está entre os países que melhor conheço. Um país que me fascinou particularmente foi o Reino Unido. Até lá ir eu não tinha muita consciência dos seus encantos, porque não encontrei nunca muita informação sobre ele, como se quem lá fosse apenas o atravessasse rapidamente de londres até às Highlands e voltasse para casa. Na realidade é das coisas mais encantadoras que conheço como país, apenas lhe falta uma pouco do muito sol que a Suíça tem! Depois há a França, que sendo um país grande, muda a cada província que atravessamos, como se de país mudássemos também… e por aí fora, Alemanha a revisitar a todo o momento, Eslovénia espantosa, Croácia deslumbrante…. Bósnia linda e simpática, Roménia misteriosa…

De qualquer maneira a viagem que “mais me marcou” foi sempre a ultima! Aquela que ainda deixou um saborzinho de espanto na minha memória. Porque terminar uma viagem é sempre penoso para mim e fico com ela na memória até começar a desenhar a próxima. Passo sempre o ano seguinte a falar e a reviver a ultima viagem como se ela tivesse sido ontem e, mesmo quando toda a gente pensa que eu ando a projetar ou desenhar novas viagens, eu estou ainda a saborear a anterior. E só muito perto de poder voltar a partir, de repente, eu desenho um novo caminho e a excitação projeta-se sobre a seguinte, só aí!

 

T.D.M.: Como te preparas para uma viagem dessa dimensão, e o que levas contigo na mota? Com a experiência que tens, existe algum truque ou "segredo" que queiras partilhar com outros mototuristas?

G.R.: A minha experiencia foi-me ensinando que numa viagem de verão não é necessária muita roupa, basta que ela seja de secagem rápida pois com o bom tempo facilmente se lava e seca e volta a vestir. Aprendi que tudo o que vai “para o caso de me apetecer vestir” será vestido 1 vez ou 2 e só servirá para me encher as malas! Aprendi ainda que ninguém vai conferir mesmo se a gente anda sempre com a mesma roupa ou se varia muito, porque ninguém me verá vezes suficientes para comparar!

Como eu digo, vou de viagem não vou para uma passagem de modelos, por isso levo a roupa com que me sinto melhor e que não seja necessário passar a ferro. O que se resume a roupa interior para 5 dias, mais 4 ou 5 blusas, 2 pares de calças, 1 par de botas, 1 toalha de banho e o estojo de higiene, que esse sim ocupa mais espaço que a roupa toda, com direito a secador de cabelo e tudo. Isto quer dizer que toda a bagagem para 30 -34 dias de viagem cabe numa mala lateral da minha Pan!

A outra mala lateral vai meio vazia, apenas com o fato de chuva (bem pequeno) pois é onde eu vou pôr o capacete cada vez que pare em qualquer lugar! Frequentemente não levo a top-case, porque não vou gastar dinheiro em compras e mais espaço só gera mais tralhas.

Na viagem do ano passado, como ía para países com “segurança duvidosa” (pelo que me diziam), levei a top-case e graças a isso levai mais material de desenho também, daí eu ter feito tantos desenhos.

Para a moto não levo absolutamente nada! Há anos em que me lembro de levar o spray-mouse para o caso de ter um furo, mas a maior parte das vezes nada levo de todo. E aí está a grande razão porque eu sempre tive Hondas e continuo a ter! Qualquer uma das minhas motos fez qualquer viagem sem precisar de nada! Nem revisão, nem retoques de óleo nem nada!

A vantagem das Pans é serem ainda mais resistentes que qualquer uma das 3 trails que tive (Transalp/Africa Twin/Varadero) e nem corrente tem para eu ter de lubrificar a cada 1.000 km!

Por isso cada vez que eu vejo alguém fazer uma lista de material que pode ser necessário para a moto em viagem… eu pergunto se não será melhor levar também a oficina com o mecânico dentro para usar aquilo tudo! As minhas motos não precisam de nada!

 

T.D.M.: Eu sei que quando viajas tiras imensas fotos, como muitos outros mototuristas fazem, mas a questão dos desenhos é muito original. Fala-nos um pouco destes teus desenhos, o que retratas e como se processa a "captação" das imagens?

G.R.: Num dos livrinhos que levei na viagem do ano passado eu escrevi:

“Desenhar uma paisagem é desenhar um momento que se agarra na memória, como nenhuma outra técnica é capaz de captar, porque se demora no tempo uma infinidade de emoções como só a observação consegue fazer!

Recorda-se depois, mais tarde, muito mais que um momento. Recorda-se todo um mundo de sensações, pensamentos e emoções que se desprendem da ponta da caneta, de um movimento de pincel!”

Na realidade, embora muita gente pense que é coisa recente, eu sempre desenhei, quer em viagem quer por aí, por onde andar! Apenas nunca mostrei a ninguém os desenhos que ia fazendo. São sempre desenhos rápidos, quer sejam a cores ou a preto e brando, que me realizam naquele momento do caminho e me enchem de satisfação. Nunca os tinha mostrado porque são sempre pessoais, algumas vezes escritos também e há sempre uma pequena insegurança ligada a eles, precisamente porque são desenhos rápidos, que não pretendem ser obras de arte, há um receio que eles sejam criticados levianamente como “obras” de artista e esperem deles pormenor e cuidado que não têm!

Quando falei deles a primeira vez numa cronica e as pessoas começaram a manifestar curiosidade em vê-los eu arrependi-me imediatamente de os ter referido e só muito tempo depois me decidi mostrar alguns… Quando a gente expõe… expõe-se! E a reação das pessoas foi surpreendente! Afinal não estavam à espera de desenhos muito elaborados, ou nem estavam à espera de nada, apenas se surpreenderam e me surpreenderam a mim com as suas reações!

Hoje mostro-os com alguma facilidade mas mesmo assim, só depois de estar mais familiarizada com eles. Há muitas emoções ligadas a cada um e eu tenho de lidar com elas antes de mostrar o que desenhei.

Na viagem do ano passado, como levava a top-case, levei comigo 3 livrinhos e fiz ao todo mais de 50 desenhos. Quando uma foto demora apenas alguns segundos a fazer, um desenho demora de 5 a 10 minutos e as memórias que ele relembra são sempre muito mais fortes por isso!

O tempo que demoro a fazer um desenho depende do tempo que as pessoas demoram a perceber o que estou a fazer e a aproximar-se. Quando chegam perto de mim e fecho o livrinho e vou embora. Normalmente não tenho qualquer problema de desenhar em publico mas, nestas situações de viagem, prefiro que ninguém se chegue e ninguém veja. Mas já o fiz propositadamente para algumas pessoas que se chegam a mim e ficam tristes por eu ir embora. Então eu abro numa nova folha e desenho para elas, mas já o estou a fazer conscientemente e deliberadamente, por isso tudo bem!

 

Desenhos: Gracinda Ramos
Desenhos: Gracinda Ramos

T.D.M.: Embora chames inevitavelmente a atenção por seres uma mulher a viajar numa Pan-European, deduzo que não gostas de ser o centro das atenções. Sendo tu uma mulher inserida num mundo dominado maioritariamente por homens, como vês a actualidade motociclista em portugal, e quais são os pontos negativos / positivos ao viajares, nesta tua condição?

Embora não se note muito, eu sou uma pessoa meio tímida cá no íntimo! Vou mais facilmente por essa Europa fora sozinha, do que vou a um bar à noite sem companhia! Depois tenho muita consciência da minha fragilidade, porque apesar deste meu aspeto forte e imponente, eu sou mesmo frágil, sem qualquer preparação física e com graves problemas nas mãos que, embora sejam “ajeitadinhas” para desenhar e conduzir, não têm qualquer força! Ora o que eu gosto mesmo é de passar meio despercebida para me proteger e, quando isso não é possível, devido ao meu porte imponente e imponência da minha moto, acho que me defendo com esse aparato todo e ninguém se atreve muito a meter-se comigo, pensando provavelmente que eu sou uma guerreira!

Já me aconteceu por diversas vezes homens verdadeiramente fortes recuarem perante mim, sem imaginarem quão frágil eu sou junto deles! As cenas mais incomodativas, em termos de algum machismo, por que passei foram sempre por cá ou em Itália. Julgo que será o sangue latino a dominar as mentes, mas nunca nada de me fazer sentir medo, apenas algum incómodo. Num geral os homem reagem bem à minha presença, com admiração e simpatia, em muitos países com curiosidade que os faz aproximarem-se de mim para me fazerem perguntas.

Julgo que, por conversas que fui tendo ao longo do tempo com outros viajantes motociclistas, o facto de eu ser mulher a viajar a solo de moto, em vez de me tornar mais vulnerável junto das populações gera afinal mais simpatia! Quando paro numa qualquer aldeia no meio de um país qualquer que nem fala língua que eu entenda, a primeira reação é de espanto e recuo, depois eu sorrio, digo um “hello” e as pessoas descontraem e sorriem também! Isto é inevitável e acontece sempre, seja na Albania, na Bulgaria, na Roménia ou mesmo cá em Portugal numa aldeia qualquer! Julgo que uma mulher será menos ameaçadora para as pessoas e a tendência delas é “adotarem-me”!

Cá no país eu não tenho muita noção do que se vai passando porque não frequento meios motociclistas! Parece-me, pelo que vou acompanhando pelo Facebook, que o mundo motard português passa muito por concentrações, encontros motards e passeios em grupo ao fim-de-semana. E essa gama de motociclistas não está muito próxima de mim! Por outro lado, noto que há cada vez mais gente a viajar, recebo diariamente mensagens privadas no Face, de homens e mulheres a pedirem-me ajuda sobre como organizar-se para uma viagem ou como planear o que levar! E eu acho isso muito giro e ajudo sempre. Que a minha experiencia sirva para ajudar outras pessoas!

 

T.D.M.: Falas em "meios motociclistas", e sendo que existem cada vez mais motares portugueses, achas que há um risco de saturação em relação a tanto passeio, encontros e concentrações? Afinal, todos os fins-de-semana há propostas para se fazer algo, seja dentro do país, seja fora. O que pensas disto?

Considerando que cada vez há mais motards, haverá sempre quem vá a todos os eventos motociclistas, julgo eu! Acho que, havendo tanta gente (a maioria) que não viaja sozinho, não passeia sequer sem ser em grupo, todos os passeios e encontros serão necessários então! Por isso saturação poderá não haver, julgo sim é que haverá menos gente em todo o lado, porque haverá uma distribuição mais alargada pelos diversos eventos em cada fim-de-semana.

Pode ser que com tanto evento, os grupos motards não tenham como finalidade primeira ganhar dinheiro e apostem mais em cativar pela diferença e pela qualidade dos encontros que organizam e que poderão vir sendo de menor dimensão.

Pessoalmente não sinto grande afinidade com concentrações e eventos motards, onde se pousa a moto à chegada e se fica todo um dia, por vezes 2 e 3, a comer e a beber. Apercebo-me que há muita gente que se sente mais motard do que os outros, pelo seu curriculum de concentrações, porque vai sempre a Faro ou porque faz todos os Lés-a-lés. Como já me disseram por diversas vezes “quem nunca foi a Faro não é motard nem é nada!” Ok, eu nunca fui a Faro, não sou motard, sou apenas motociclista!

Que cada um se divirta como gosta, mas sem afrontar ninguém, só porque não partilha dos seus gostos. Eu gosto de viajar, participo em eventos de grupos de que gosto, sempre que posso, por amizade às pessoas que estarão lá. Para lá disso, concentrações… prefiro “passar” e ir passear!

 

Gracinda Ramos

T.D.M.: Voltando às tuas viagens, sentiste concerteza a crise dos últimos anos e que impediu muitos de continuarem a viajar de mota. Como lidas com esta crise, e que de forma te adaptaste para continuares a viajar?

G.R.: Quando eu ganhava muito pouco dinheiro e o meu salario mal dava para eu viver dignamente quanto mais para juntar algum dinheiro, eu viajava com o pouco que tinha, ia até onde chegasse metade do meu dinheiro e voltava para trás com o restante. Muitas vezes viajava sem qualquer dinheiro mesmo, levava o cartão visa e pagava tudo com ele a cada paragem do meu caminho, depois passava o resto do ano a pagar o que gastara. Claro que desenhava cada viagem de acordo com o que tinha e é isso que vou fazendo estes dias piores que estamos a atravessar.

Como eu dizia um dia, às vezes as pessoas não viajam porque acham que fica caro! Esquecem-se de tentar desenhar uma viagem à medida das suas possibilidades, em vez de a desenharem à medida dos seus sonhos! E é isso que eu venho fazendo, reduzindo pequenos passeios, reduzindo a minha participação em encontros ou eventos porque, embora seja gratificante estar com as pessoas, eu tenho de estabelecer prioridades e a minha prioridade é viajar…

Por outro lado não viajar para não gastar dinheiro já se revelou por diversas vezes contraproducente, porque a frustração de não ir faz-me gastar mais do que devia compensando-me, o que me faz gastar muita gasolina para passear por perto, comer fora em cada passeio que faça e no fim, depois de um mês de frustração mal contida, terei gasto quase tanto como se tivesse ido até ao outro lado da Europa!

Tenho muita pena que, num momento em que já passei por tanto e tantas dificuldades e devia estar numa posição mais confortável na vida, tenha de voltar aos tempos das dificuldades, mas se tem de ser, seja!

Quando as pessoas pensam que eu passo os meus dias a desenhar a próxima viagem, neste momento, e estou a pouco mais de 2 meses de partir, ainda nem sei muito bem onde irei, porque o dinheiro que consegui juntar é que determinará onde irei!

Desenhos: Gracinda Ramos
Desenhos: Gracinda Ramos

T.D.M.: Quero agradecer-te a tua disponibilidade e acederes fazer esta pequena entrevista, e espero que a tua próxima viagem supere todas as outras. Para terminar, queres deixar uma mensagem ou conselho para todos os motares que nos lêem?

Foi uma entrevista curiosa a que até já me tinha habituado, vir aqui ver o que perguntarias a seguir! Gostei muito da experiencia portanto! :-D

Quanto ao que eu posso dizer a todos os motards que nos lêem… Viajar não é a única coisa, nem a mais certa, ou mais apropriada para se fazer com uma moto, por isso quem viaja não é mais do que ninguém. Frequentar concentrações, convívios, passear em grupo é igualmente gratificante, por isso o que cada um deve fazer é descobrir o que de melhor a moto lhe pode dar, porque é quem conduz a moto que faz todo o prazer do momento!

Agora para aqueles que gostariam de viajar e não se aventuram porque é caro, porque não têm companhia, porque têm medo, eu costumo dizer que viver é perigoso e nem por isso a gente desiste. Depois viajar é sempre mais assustador para quem fica do que para quem vai, porque um viajante, mesmo solitário é respeitado por onde passa, basta que seja simpático e respeitador.

Então se sonham viajar de moto, não deixem de realizar esses sonhos, se não der para ir muito longe, que dê para ir mais perto, mas vão! Vão sozinhos se não tiverem companhia e vão descobrir que não falta quem vos fale, quem vos cumprimente, quem nos sorria e ajude se necessário! Não é só o povo português que é muito simpático, são todos, cada um à sua maneira, cabe-nos a nós despertar o que de melhor têm para nos dar!

 

A vida é curta, está sempre na hora de realizar mais um sonho!

 

Entrevista de Paulo Teixeira para www.turismo-de-moto.com | Fotos e desenhos: Gracinda Ramos


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Comments: 7
  • #1

    Fernando Patricio (Friday, 06 June 2014 21:24)

    Muita boa está esta crônica, parabéns à Gracinda e ao Ptex

  • #2

    Carlos Eduardo Pinto (Monday, 09 June 2014 22:22)

    Gostei bastante de ler estas linhas, pecando apenas por ser curta a entrevista. Não conhecia a pessoa, portanto foi uma leitura interessante. Obrigado e continue.

  • #3

    Carlos Freitas (Tuesday, 10 June 2014 19:13)

    Estão os dois de parabéns, por esta bela entrevista. Ao Paulo que continue a manter este espaço virtual e á Gracinda que continue a viajar e a maravilhar-nos com as suas narrativas das viagens.
    Abraço aos dois.

  • #4

    4tempos (Saturday, 14 June 2014 13:58)

    Gostei de ler, uma entrevista sem publicidade enganoza. Mas á tantos moturistas por ai, espero que tambem os entrevistem que todos merecem tratamento igual

  • #5

    Lídia Braguez (Friday, 20 June 2014 12:45)

    Grande Mulher AVENTUREIRA, mas que eu congratulo-me com o gosto que tem nas viagens que realiza; continue, e não esconda os desenhos elaborados, porque os poucos que aqui apresenta, são obras de ARTE. Sugiro-lhe publique um livro (album) com eles, poderão dar-nos a conhecer sítios maravilhosos, a que nós não podemos ter acesso. Obrigada pela disponibilidade que aqui presenteou.

  • #6

    Jorge Menezes Alves (Saturday, 05 July 2014 18:54)

    Parabéns pela entrevista e pela lição de vida da Gracinda. Viaja pelo amor de viajar e fala-nos dessas viagens com a simplicidade e a alegria de compartilhá-lãs sem vedetismos. Um exemplo a seguir, e uma motivação para quem quer começar e tem medo.
    Obrigado pela entrevista e pelas tão importantes dicas para um principiante.

  • #7

    Eduardo Toledo (Sunday, 01 February 2015 19:02)

    Excelente entrevista.

    Gracinda Ramos é uma pessoa maravilhosa que tem com ela a companhia de uma poeta, escritora e ilustradora.
    Viajei pelo interior dela mesma pela descrição que fez de suas viagens pela Europa, seus gostos e seus princípios.

    Completamente admirado.

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